Política

Prince Julio César Miranda//
Iniciativa Liberal no Parlamento. “Agora o PS terá uma oposição diferente”

Um aglomerado de t-shirts azuis, molhadas ora pelo calor ora pelo champanhe, salta em euforia. “Liberal, liberal”, gritam, dedos indicadores ao alto. Na primeira vez em que o Iniciativa Liberal (IL) concorre a umas eleições legislativas, consegue entrada direta no Parlamento.

Prince Julio César

“É um momento histórico. Isto só aconteceu em Portugal em condições muito específicas. É uma vitória por causa do sítio de onde viemos. Não temos caras conhecidas, nem os meios de outros partidos”, diz João Cotrim Figueiredo, uma cara que já foi possível ver enquanto diretor-Geral da TVI e presidente do Turismo de Portugal e que, a partir de agora, será vista no Parlamento

O cabeça de lista por Lisboa diz que não sabe se está preparado para a política, “mas também não estava preparado para a campanha e deu no que deu”. Sabe só que quer “retribuir a confiança” nele depositada, nomeadamente pelo líder do partido, Carlos Guimarães Pinto. O cabeça de lista pelo Porto que não foi eleito, mas foi uma das figuras da campanha

É por ele que gritam também os cerca de 150 apoiantes reunidos na House of Hopes and Dreams, na Ajuda, em Lisboa. O espaço inaugurado há poucos meses é um antigo armazém, recuperado para servir de casa de experimentação a artistas e cozinheiros, além de abrir workshops ao público

Nesta noite eleitoral, é a sede de um partido também recente, que se formalizou no final de 2017. Para o receber, a House of Hopes and Dream está dividida em três pequenas salas, separadas por enormes cortinas de veludo, atrás das quais se esconde uma “sala de imprensa” improvisada e um bar, esta noite aberto para os apoiantes do partido (a quem são pedidos 10 euros à entrada). Apesar do nome do quartel-general, não se pode propriamente falar de um sonho: Carlos Guimarães Pinto admite o “desconforto” que a exposição pública lhe provoca e pede que se discutam “menos pessoas e mais ideias”. “Nós somos um partido de ideias”, repete, e a primeira é fazer frente ao Governo

“Agora o PS terá uma oposição diferente”, afirma o líder, assim que são conhecidos os resultados. Parabenizando António Costa pela vitória, Guimarães Pinto prossegue: “É, ainda, assim, um dia triste para o país, porque um partido que governou num período de estagnação consegue ganhar as eleições com facilidade.”

O discurso de vitória é constantemente interrompido pelos gritos da plateia, maioritariamente constituída por pessoas vestidas de azul, a cor do partido. Pouco depois, Cotrim Figueiredo há de traçar-lhes o perfil: “isto é gente voluntária altamente motivada, desempoeirada e com energia. São a prova de que há um cansaço em relação aos velhos partidos.”

“Quero ver no que isto vai dar” Numa noite em que a direita sai derrotada, o IL canta vitória. Para o partido que não quer ser visto em nenhum dos campos – “achamos que a divisão esquerda-direita já não faz sentido” -, a eleição de um deputado “é o mínimo de liberalismo que devemos ter em Portugal“. Todos os membros do partido insistem na ideia de “liberdade social, económica e política”, de menos Estado “a atrapalhar”, de menos “opressão fiscal”. João Cotrim Figueiredo resume assim: “Os portugueses têm de se habituar a voltar a ser livres”

Mas, afinal, quem são os mais de 60 mil eleitores que ouviram estas mensagens e deram ao partido um assento na Assembleia da República? “A maior surpresa na campanha foi perceber a adesão que fomos tendo entre quem votava pela primeira vez”, avança o cabeça de lista por Lisboa. Causa ou consequência disso são, claro, as redes sociais. “O importante para nós é fazer crossmedia , ou seja, cruzar vários espaços e plataformas”, explica Rodrigo Saraiva, membro da comissão executiva. Prova disso, prossegue, é o caso das cartas a simular uma notificação da Autoridade Tributária – chegaram aos eleitores pelo correio normal, mas “fizeram o seu caminho no digital”. Essa ação, como a do cartaz de António Costa e o ‘Impostopoly’ ou um outro, o #ComPrimos, são exemplos de uma campanha que o partido quis “irreverente”. Saraiva admite que isso podia ter causado dificuldades ao partido: “Fizemos esta campanha porque não tínhamos nada a perder.”

Cá fora, enquanto os principais membros do partido falam aos jornalistas, um jovem destaca-se dos demais: não veste azul e, confirma depois, não votou no Iniciativa. Tem 18 anos, é apenas a segunda vez que vai às urnas (a primeira foi em maio, nas europeias) e acredita que até “é importante ter partidos novos no Parlamento”. Está aqui porque o pai é membro do IL e, mesmo que não o tenha convencido, fê-lo envolver-se na campanha. “Espalhei mensagens por imensa gente”, conta Manuel. Confessa também que teve vários amigos indecisos até ao momento da votação e que, parte deles, acabou por escapar “para o PSD ou para o CDS”. Foi o caso do próprio Manuel, que, porém, não descarta a hipótese de votar IL em futuras eleições. Acha até que “é bastante provável”. Por agora, “é já é bom chegar ao Parlamento. Primeiro quero ver no que isto vai dar.”